Jack Daniel’s Bottled in Bond Rye – Transcendência
Há objetos feitos para pessoas cuidadosas. Copos de coquetelaria da Kimura Glass, sapatos de camurça bege, bonsais, sistemas de arrefecimento de Alfa-Romeos da década de 70 e relações afetivas estáveis. São coisas que exigem cuidado, manutenção fina, temperatura controlada, ausência de crianças, ausência de gatos e, preferencialmente, ausência de seres humanos. O que, existencialmente falando, resolve tudo.
E há objetos feitos para a pessoas que existem no mundo real. Tipo o tijorola (que me lembro, até hoje, de ter nadado um medley inteiro na piscina com um desses, que sobreviveu). Ou a panela de ferro, Honda Civic, o copo americano, as Havaianas, e aquelas mesas plásticas de boteco que sobrevivem a chuva, sol, gordura, cigarro, bêbado, criança e o tio do zap. São coisas cuja promessa não é de tanscendência, mas de resistência. A famosa palavra dos coaches, resiliência, que é ficar inteiro depois de qualquer uso indevido. O que, convenhamos, já é uma forma bastante honesta de transcendência.
Na coquetelaria, essa diferença existe também. Há destilados que precisam ser tratados com delicadeza. Os whiskies japoneses, por exemplo, exigem precisão técnica e equilíbrio impecáveis. Lembro-me até hoje de um drink de Hibiki, que fizemos para um evento da Suntory. Equlibrá-lo foi uma das tarefas mais ingratas do mundo, ainda que o resultado tenha sido quase divino.
E há destilados com uma espécie de colete à prova de incompetência. Não fazem milagre, claro, porque nem todo Sazerac sobrevive a uma imperícia tão grande quanto a minha. Mas aguentam mão pesada e diluição errada. E mantém sua personalidade com uma resiliência inacreditável.
É mais ou menos aí que entra o Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye, um whiskey de centeio que tem dois grandes trunfos. O primeiro, sua graduação alcoólica. Que é especialmente conveniente na hora de fazer coquetéis, especialmente para os bartenders de fim de semana. Com 50% ABV, o whisky aguenta mais diluição, e é menos sucetível a erros. Assim, a chance de ter um Sazerac ou Vieux Carré que mais se assemelha a um highball, é menor.
O segundo é a mashbill. Ele tem 70% centeio (rye), 18% milho e 12% cevada maltada. Isso o coloca no meio do caminho entre os ryes que atendem o mínimo regulamentar de 51% de centeio – como é o caso de Jim Beam Rye e Wild Turkey Rye – e aqueles que prestam homenagem à receita clássica, pré lei-seca, com uma carga insana de centeio, como é o caso do High West Double Rye.
Essa, talvez, seja sua melhor qualidade. Porque ele tem drinkability para ser consumido puro, sem parecer monótono, monotemático, ou demasiado agressivo. Mas é capaz, também, de sustentar um coquetel clássico como um La Louisiane sem desaparecer. E essa não é uma opinião sem prova. Durante os dois primeiros meses no Caledonia – meu querido bar – foram consumidas três vezes mais Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye do que Triple Mash ou o tradicional.
Um outro ponto, que não é tão divulgado pela marca, é a idade. Dentre os Bottled-in-Bond, o Rye é o que tem a idade média mais alta. Ainda que não divulgue por quantos anos o líquido maturou, a média é de sete anos. Isso de acordo com Chris Fletcher, master distiller da Jack Daniel’s, que recentemente veio ao Brasil para uma série de masterclasses.
Sensorialmente, o Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye traz notas de pimenta, cravo, canela e aquele clássico herbal, mentolado, dos whiskeys de centeio. Ele tem também a conhecida nota química de Jack Daniel’s, mas mais contida, e um adocicado com baunilha, que equilibra bem com a graduação e as notas apimentadas.
Uma garrafa de Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye custa algo como R$ 230 (duzentos e trinta reais). É um valor excelente para um whiskey de centeio, especialmente considerando sua versatilidade – tanto para se beber puro, quanto para coquetelaria.
No fim, o Jack Daniel’s Bottled-in-Bond Rye não é um bonsai. Não exige pinça, oração ou contemplação. É um whiskey versátil, potente o bastante para segurar um coquetel, e equilibrado o bastante para ser bebido puro. Ele não promete transcendência, ainda que essa possa ser encontrada, mas resistência. E pra quem, como este Cão, que consegue fazer de um Sazerac um highball, isso é uma enorme virtude.
JACK DANIEL’S BOTTLED-IN-BOND TENNESSEE RYE
Tipo: Rye Whiskey
Marca: Jack Daniel’s
Região: N/A
ABV: 50,0%
Notas de prova:
Aroma: caramelo, pimenta, baunilha, cravo, hortelã
Sabor: seco, com especiarias, hortelã, cravo e pimenta do reino. Um certo adocicado de açúcar mascavo. O final é apimentado e seco.



































