Por que Rye não é Rye no Canadá
“Bye Bye, miss american pie”. O refrão ressoa em minha memória, no momento que me coloco a escrever. Devo ter ouvido essa música um milhão de vezes, quando era mais novo. Bem naquela idade em que tudo se cristaliza no cérebro, como a gordura se cristaliza nas artérias, quando a gente vai envelhecendo. Sou capaz de recitar – não cantar, tenho vergonha – a canção de oito minutos inteira, só puxando a primeira estrofe. Apesar disso, nunca parei pra entendê-la de verdade.
“American Pie” é cheia de referências. O ponto de partida é o acidente aéreo que levou Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P. Richardson. McLean tinha treze anos quando aconteceu, e entregava jornais. Daí, o verso de abertura da música. Mas ela não trata só de um acidente aéreo. Ela é uma elegia americana. A canção cobre mais ou menos dez anos de transformações políticas e culturais, sob a ótica de um jovem que amadureceu em 1960.
E foi uma época conturbada. O assassinato de Kennedy, Luther King, Vietnã e contracultura. A banda que marchava e não cedia podia ser uma referência aos Beatles, mas, também, à guerra. O tal perfume é o gás lacrimogênio. Jack Flash faz um aceno a Rolling Stones, e Altamont não precisa de muita explicação. Mas há um detalhe, um micro-mini-ponto, que sempre me chamou a atenção, como um whisky geek. “And them good ole boys were drinkin’ whiskey and rye“
Whiskey and rye. É quase sacanagem dar atenção a isso, num contexto tão rico quanto a letra da elegia. Mas me prendeu, e não é somente redundância, para dar ênfase. Rye whiskey não é rye whiskey na música do Don. Em nenhum sentido. É whiskey canadense, que estava bem na moda na época. Então, a turma bebia rye whiskey e whisky canadense. Que, pelos usos e costumes, passou a ser chamado de rye, ainda que nem precise ter centeio na mistura. É, confuso assim. Eu explico.
A história começa bem antes de American Pie. No fim do século XVIII, o Canadá já produzia whiskey. Ele era destilado a partir de um fermentado de trigo. Os moínhos de trigo do país produziam mais farinha do que era consumida. Para não estragar, usavam o excedente como matéria prima para produzir whiskey. O que, para mim, é ironicamente maravilhoso, porque cada pão canadense guardava em si a decepção de não ter se tornado um whiskey.
Alguns produtores, porém, achavam que o whiskey precisava de um pouquinho mais de tempero. Especialmente os imigrantes holandeses e alemães, proprietários de boa parte dos referidos moinhos. Por isso, resolveram adicionar um pouquinho de centeio – que, como você já deveria saber, traz notas herbais e apimentadas ao new-make. A receita pegou.
Depois, especialmente no século XX, o milho passou a dominar como cereal de base porque produz álcool de maneira mais eficiente. Mas a lógica continuou a mesma: um whisky-base relativamente neutro, frequentemente de milho, combinado com um whisky de caráter mais intenso — tradicionalmente rico em centeio. Ou seja, podia haver relativamente pouco rye no blend e, ainda assim, ele dar boa parte da “assinatura” aromática.
O cereal base havia mudado, mas, o centeio, como tempero, permanecera. E os canadenses passaram a pedir rye como sinônimo daquele whisky, mais intenso, herbal e aromático. Com um pouco mais de tempo, a palavra rye, no contexto etílico, para os canadenses, ganhou o mesmo significado que whisky. E aqui vem a parte mais surreal – mesmo que não tivesse um grão de centeio na mashbill. O que pra mim é quase tão maravilhoso quanto as referências de American Pie, porque mostram como a linguagem é moldada pelo uso. Wittgenstein provavelmente não era um grande fã de whiskey. Se fosse, teria gastado bem menos páginas para explicar este conceito em suas Investigações Filosóficas. Mas, perdão por divagar.
E não é só no balcão do bar que funciona assim. A legislação canadense cristalizou o uso costumeiro da palavra (perdão, Wittgenstein, a lembrança é inevitável). Não há nela qualquer exigência de percentual mínimo de centeio para que um whisky possa ser chamado de rye. Zero. Deixa eu repetir isso, como um refrão, para fins dramáticos. Uma lei, escrita, que deveria criar regras para o uso de certa expressão, determinou que rye e whiskey são a mesma coisa no Canadá, consolidando o uso costumeiro da palavra, e ignorando o histórico. É absolutamente lindo.
Na verdade, é até um pouquinho mais absurdo. A definição legal considera sinônimos Canadian Whisky, Canadian Rye Whisky e Rye Whisky. Os três obedecem essencialmente às mesmas regras: devem ser produzidos a partir de cereais, envelhecer por pelo menos três anos em madeira, ser destilados, maturados e produzidos no Canadá, ter no mínimo 40% de álcool e possuir aroma, sabor e caráter geralmente associados ao whisky canadense.
Mesmas três letras. Dois significados completamente diferentes. E talvez seja esse o melhor exemplo de que, às vezes, as palavras não significam aquilo que sua etimologia, sua tradução ou mesmo o bom senso sugerem. Significam aquilo que uma comunidade decidiu fazer com elas. No Canadá, rye não é necessariamente centeio. É whisky. Talvez McLean, em sua elegia sobre a América e a perda da inocência ao crescer, tivesse pensado nisso. Ou não.

































