The Macallan M Copper – Grand Tour
Fui, esses dias, com Cã mãe no shopping, porque ela queria ver o Iphone Pro. Passamos na frente de uma adega, cheia de vinhos, que orgulhosamente exibiam a designação de Reserva. Daqueles, que a gente paga com um cartão de crédito signature, antes de uma refeição em alguma padaria gourmet com qualquer nome francês. É engraçado como certas expressões nunca significaram grande coisa. E outras, que já significaram, tiveram seu sentido cuidadosamente saqueado pelo marketing. No mundo dos carros – que eu adoro – acho que a mais devassada é GT.
Deixe-me trazer algum embasamento histórico. Antes de habitar a traseira do Peugeot 208 e do VW Polo, a sigla “GT” fazia referência aos grand tourers, carros concebidos para uma versão motorizada do velho Grand Tour. Que, por sua vez, era aquela viagem de formação feita por jovens aristocratas europeus, sobretudo ingleses, que passavam anos rodando o continente para estudar arte, arquitetura, história e, presumivelmente, desenvolver opiniões muito firmes sobre qualquer coisa cuja opinião é absolutamente dispensável.
O GT herdou esse nome porque propunha uma versão motorizada da mesma fantasia: cruzar grandes distâncias não só com velocidade, mas com conforto, luxo e alguma pretensão cultural elitista. Há inclusive um episódio de The Grand Tour (veja só) em que Jeremy Clarkson resume isso com surpreendente clareza: “o carro GT, antes de mais nada, precisa ser um lugar agradável para se estar. Porque, por definição, você vai passar muito tempo nele.”
Acho que o exemplo mais claro e óbvio de um GT real é o Bentley Continental GT. Ele é um carro absolutamente funcional. Tem um belo porta-malas, bancos, volante e essas concessões burocráticas à ideia de mobilidade. Mas, na prática, é uma maneira obscenamente cara de transformar um deslocamento banal numa deliciosa experiência de isolamento acústico e desprezo silencioso pelo restante da humanidade.
E é justamente isso que o torna interessante. Porque o Continental GT não abandonou a função original de um carro (como, sei lá, um Ariel Atom). Ele continua servindo para sair de um ponto e chegar a outro, parar na frente do restaurante caro, enfrentar o mesmo semáforo que o HB20 (mas com alguma dignidade aristocrática) e levar o dog no vet. A diferença é que o cachorrinho estará cercado por couro com pesponto manual e mogno polido no painel. E é justamente isso que faz dele, depois desta longa e talvez desnecessária digressão, a analogia perfeita para o The Macallan M Copper.
O The Macallan M Copper faz parte da série M da The Macallan, que celebra os seis pilares fundamentais da destilaria, que, traduzidos, perdem um pouco da pompa: a cor natural, a maestria, a propriedade, os barris de carvalho excepcionais, o vinho Jerez e seus alambiques curiosamente pequenos. Este último, o pilar representado pelo The Macallan M Copper. De acordo com a The Macallan “M Copper é uma homenagem aos pequenos alambiques que desempenham um papel fundamental na produção do nosso precioso destilado. É uma expressão vibrante e elegante que reflete a autenticidade que impulsiona a marca e a nossa dedicação à inovação.“
Sensorialmente, o The Macallan M Copper é irretocável. Mesmo com seus 42% de graduação alcoólica, há um equilíbrio que demonstra o controle total que a destilaria tem sobre seus produtos. Ele traz notas de açúcar mascavo, damasco, pêssego, pimenta do reino e especiarias. À medida que evolui no copo, surgem outros aromas – inclusive um leve traço sulfuroso e algo de cereal – num contraponto curioso à fruta e às especiarias. É, aliás, um whisky que trabalha com contrapontos: o peso do destilado da The Macallan, com a delicadeza da maturação em carvalho americano, e o equilíbrio de sua concepção.
A apresentação do M Copper deve ser mencionada. Ele vem em um decanter de cristal, produzido pela Lalique, e dentro de um estojo enorme, que se abre em dois. É luxo puro, como um Bentley Continental GT. E, assim como o carro, o The Macallan M Copper cobra o preço por isso. Uma garrafa, no Brasil, custa (deixe-me dar um suspiro de suspense aqui) setenta mil reais. O equivalente, provavelmente, a um par de discos de freio do supracitado Bentley.
Mas convém não fingir ingenuidade. O líquido, sozinho, não explica o preço. Ou, para ser mais preciso, não explica este preço. Porque há outros whiskies tão maturados (alguns, inclusive, mais transparentes sobre a idade), tão raros e tão bons quanto custando bem menos. O que o M Copper vende não é apenas maturação ou seleção rigorosa. Vende também o decanter Lalique, a produção limitada, a construção estética, o pedigree da marca e essa capacidade extraordinária que a Macallan desenvolveu de transformar whisky em algo muito além de líquido.
E aqui reside sua esperteza. O M Copper não concorre exatamente com outros single malts. Ele concorre com relógios, esculturas, canetas que ninguém usa, carros que ninguém dirige e obras de arte contemporânea que pouca gente entende. Seu preço não serve apenas para refletir custo: serve para comunicar posição. É alto porque precisa ser alto. Se custasse pouco, ou mesmo “apenas bastante”, perderia parte da aura.
É um exercício inútil indagar se o The Macallan M Copper “vale o que custa”. Porque quase nada que reside nesta altura estratosférica de ar rarefeito, onde poucos sobrevivem, vale. O líquido é maravilhoso, mas há muito mais por trás. Há também cristal, escassez – real e construída – fetiche e prestígio. E, convenhamos, poucas marcas no mundo fazem isso com tanta competência quanto a The Macallan.
Talvez a Bentley. Não sei.
THE MACALLAN M COPPER
Tipo: Single Malt
Destilaria: The Macallan
Região: Speyside
ABV: 42%
Notas de prova:
Aroma: açúcar mascavo, damasco. A medida que evolui no copo, traz uma nota sulfúrica.
Sabor: Açúcar mascavo, damasco, pêssego, pimenta do reino, gengibre. O final é levemente sulfuroso e pouco apimentado. Extremamente equilibrado e resinoso.
*agradecimentos ao amigo Nilo Perez por permitir que provasse este single malt – cheers!



































